8 de setembro de 2012

Fado E MPB Dividem A Cena Em BH

Lançado oficialmente ontem, em Brasília, o Ano de Portugal no Brasil - uma promoção conjunta do Ministério da Cultura, Funarte, entidades e agentes públicos e privados dos dois países - começa com uma programação que prevê três shows da cantora portuguesa Mariza, uma das mais célebres intérpretes de fado na atualidade, considerada pelo jornal britânico "The Guardian" uma "diva da música do mundo". A primeira apresentação foi ontem, na abertura do evento, com participação de Roberta Sá, e a segunda será amanhã, em Belo Horizonte, no Palácio das Artes, onde a fadista vai dividir o palco com Milton Nascimento. A mesma dupla segue para o Rio de Janeiro, onde exibe seu talento na próxima quarta-feira, no Theatro Municipal.

Conforme o diretor artístico responsável pelos shows, o produtor Zé Ricardo, dividir a cena com Milton Nascimento foi um desejo da própria Mariza. "Ele é uma figura incontornável da música popular brasileira, pela qual tenho tanto apreço. Fui a um show dele em Lisboa, conheço bem sua carreira musical e, admiradora que sou, propus fazermos juntos essa apresentação", diz, sem querer dar maiores detalhes do que está reservado para o público que for ao Palácio das Artes amanhã. "Tem algumas músicas do Milton e também alguns fados. Estamos combinando um roteiro musical que seja bem representativo das duas culturas, a brasileira e a portuguesa, mas é segredo", diz. É certo, contudo, que músicas como "Fé Cega, Faca Amolada", "Clube da Esquina 2" e "Travessia" estarão no repertório.

Com uma discografia que contabiliza seis álbuns, lançados a partir do início dos anos 2000, e um currículo que registra apresentações em algumas das principais casas de espetáculo do mundo, como o Carnegie Hall (Nova York), a Ópera de Sydney e o Royal Albert Hall (Londres), Mariza diz que cultua a música brasileira desde muito jovem. "Duas cantoras em particular me influenciaram muito: Elis Regina e Clara Nunes. Sempre amei as duas, são grandes referências. Mas, além delas, tem muitos músicos brasileiros que adoro", diz, citando, por exemplo, Jacques Morelenbaum, que assinou a produção de seu terceiro álbum, "Transparente", lançado em 2005.

Ela conta que, ao longo dos últimos dez anos, teve a oportunidade de se apresentar ao lado de diversos expoentes da MPB, tanto no Brasil quanto em outros países. "Já cantei com Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Alcione, Ivan Lins, Ney Matogrosso, enfim, muita gente. Vou bebendo dessa água sempre que possível, porque me ajuda a crescer. Esse diálogo com artistas brasileiros vem sendo construído desde meu primeiro disco", diz, aludindo a "Fado em Mim", de 2001. O vetusto gênero português, que também está expresso no título do mais recente álbum de Mariza, "Fado Tradicional", lançado em 2010, é o que orienta sua arte, sem que, no entanto, represente uma delimitação.

"Para mim, não existe essa história de fado contemporâneo", destaca a cantora, que é apontada justamente como a maior representante dessa chancela que ela desconsidera. "O fado é uma música centenária, de culto, urbana e, como toda música urbana, respira o ambiente da cidade e da época em que é feita. O que acontece é que cada cantor, cada intérprete, escolhe seu tema, sua maneira de cantar, e aí você tem fados atuais que falam de uma nova Lisboa, de uma nova geração, do momento atual, de questões do século XXI. Mas ainda assim é uma música centenária", diz.

E quais seriam os pontos de convergência entre o fado e a música de Milton Nascimento? Quais as semelhanças, os campos de diálogo? Mariza responde: "A música não tem fronteiras nem língua, ela é universal. Essa coisa do fado, da música do Milton Nascimento ou da música de qualquer artista, de qualquer país, eu acho que não tem diferença, é apenas música e, assim sendo, as barreiras deixam de existir, porque ela fala por si", diz.

Previsto para se estender até junho de 2013, o Ano de Portugal no Brasil tem o objetivo de promover encontros que estimulem a criatividade e a diversidade do pensamento, das manifestações artísticas e culturais dos dois países, além de intensificar o intercâmbio científico e tecnológico e estreitar as relações econômicas entre as duas nações.

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